29/04/2009

8 meses

Hoje, dia 29, completam-se oito meses de falecimento do meu pai.
 
É uma saudade que não passa.
 
Não passa, mas vai mudando.
 
Não ouço mais a voz dele me chamando quando chego em casa, mas sinto falta de seu sorriso, seu jeito, seu humor.
 
As lágrimas ainda brotam, quase diariamente.
 
É, saudade dói...
 
 

 

 

08/04/2009

"Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual.
Somos seres espirituais passando por uma experiência humana "
(Teilhard de Chardin)
 
Esta frase me falava profundamente no coração.
Hoje não sei se ando meia herege, ou agnóstica mesmo.
A pieguisse já não faz mais parte do meu ser.
Há alguns dias atrás, me classificaria como atéia.
 
Descrente que estou da instituição igreja, da humanidade em geral.
 
Entretanto, um padre me fez mudar de opinião.
Mas não um padre qualquer, um padre católico.
Mas não um católico neo-conservador, como a grande massa do clero retrô de hoje.
 
Um padre que de tão apaixonado pelo reino, deu a vida por ele.
Um reino concreto, não um reino virtual, cheio de anjos e flores de perfume anestésico.
 
Oscar Romero é seu nome, um mártir de uma Igreja que está morrendo, sufocada por clégimas e costumes medievais. Que se fecha em si mesma e deixa os pobres do lado de fora, morrendo de dor e de fome, porque 'política é coisa do Estado, igreja deve cuidar do espiritual'.
 
Espiritual é o ser humano em sua essência!
 
Somos seres espirituais, o homem é TODO espiritual, do momento da concepção até o momento da partida.
Nosso corpo é de carne, carne espiritual. Nossos sentimentos, nossas dores, nossa fome, nosso desejo, nossos sonhos... nada se separa da dimensão espiritual.
Negar isso nos deixa vazios.
E o vazio é frio, nos seca por dentro.
 
Não entendo o medo em assumir esta dimensão espiritual em toda a integridade da pessoa...
 
 
"Irmãos, eu gostaria de gravar no coração de cada um esta ideia: o cristianismo não é um conjunto de verdades nas quais devemos acreditar, de leis que devem ser cumpridas, de proibições! Assim se torna muito repugnante. O cristianismo é uma pessoa, que me nos amou tanto, que pede nosso amor. O cristianismo é Jesus Cristo e o evangelho."
 6 DE NOVEMBRO DE 1977
 
 
 

06/04/2009

Escutatória

(Rubem Alves)

Sempre vejo anunciados cursos de oratória.
Nunca vi anunciado curso de escutatória.
Todo mundo quer aprender a falar...
Ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória,
mas acho que ninguém vai se matricular.
Escutar é complicado e sutil.
Diz Alberto Caeiro que...
Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas.
Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro:
Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito.
É preciso também que haja silêncio dentro da alma.
Daí a dificuldade:
A gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor...
Sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer.
Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração...
E precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer,
que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante
e sutil de nossa arrogância e vaidade.
No fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino,
que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64.
Contou-me de sua experiência com os índios:
Reunidos os participantes, ninguém fala.
Há um longo, longo silêncio.
Vejam a semelhança...
Os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano,
ficam assentados em silêncio...
Abrindo vazios de silêncio... Expulsando todas as idéias estranhas.
Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial.
Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio.
Falar logo em seguida seria um grande desrespeito,
pois o outro falou os seus pensamentos...
Pensamentos que ele julgava essenciais.
São-me estranhos.
É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir... São duas as possibilidades.
Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza.
Na verdade, não ouvi o que você falou.
Enquanto você falava,
eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala.
Falo como se você não tivesse falado.
Segunda: Ouvi o que você falou.
Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo.
É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos,
estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer:
Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou.
E, assim vai a reunião.
Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos.
E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia.
Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência...
E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras...
No lugar onde não há palavras.
A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa.
No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada.
Somos todos olhos e ouvidos.
Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia,
ouvimos a melodia que não havia...
Que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio.
Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também.
Comunhão é quando a beleza do outro
e a beleza da gente se juntam num contraponto.

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